Sermão do Pretório

 


Sermão do Pretório

Comemoração dos Passos 2025

“Era desprezado, era o refugo da humanidade, homem das dores e habituado à enfermidade; era como pessoa de quem se desvia o rosto, tão desprezível que não fizemos caso dele”.

Essa Profecia, retirada do Livro do Profeta Isaías, toma um rosto em Jesus de Nazaré. Ele é a personificação do servo sofredor, rejeitado e humilhado. E assim é, não por ser ele um pecador, mas por tomar sobre si as nossas iniquidades. Jesus assume a identidade de um descartado desde seu pobre nascimento em Belém, quando “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7).  Continua com essa identidade durante toda vida, se colocando ao lado dos perseguidos e marginalizados, dando dignidade àqueles que a sociedade e a religião viravam o rosto.

Chegamos ao cume da contemplação do Cristo Sofredor, que assume e abraça a cruz. No pretório de Pilatos (cf. Mc 15, 16-20), <os soldados notaram um arbusto de silvas na praça adjacente; pegaram um feixe e o colocaram em sua cabeça; sobre seus ombros, ainda sangrando da flagelação, colocaram um manto de escárnio sobre ele; suas mãos estão atadas com uma corda áspera; em uma mão colocaram uma cana, símbolo irrisório de sua realeza. É o protótipo das pessoas algemadas, sozinhas, à mercê de soldados e bandidos que descarregam sobre os pobres infelizes a raiva e a crueldade que acumularam na vida. Torturado!

"EIS O HOMEM!”, Eis o homem!, exclama Pilatos, ao apresentá-lo pouco depois ao povo (Jo 19,5). Palavra que, depois de Cristo, se pode dizer das intermináveis fileiras de homens e mulheres humilhados, reduzidos a objetos, privados de toda dignidade humana. Na cruz, Jesus de Nazaré torna-se o emblema de toda esta humanidade "humilhada e ofendida". Deveria se exclamar: "Rejeitados, desprezados, párias de toda a terra: o maior homem de toda a história foi um de vocês! Independente do povo, raça ou religião a que pertençais, tendes o direito de reivindica-lo como seu.> [1] É Jesus imagem de nossas dores!

A cruz também contém uma mensagem para aqueles que estão do outro lado: para os poderosos, os fortes, aqueles que se sentem tranquilos no seu papel de "vencedores". E é uma mensagem, como sempre, de amor e de salvação, não de ódio ou de vingança.  Lembra-lhes que, no final, eles estão ligados ao mesmo destino que todos; que fracos e poderosos, indefesos e tiranos, todos estão sujeitos à mesma lei e aos mesmos limites humanos. A morte paira sobre a cabeça de todos, pendurada por uma crina de cavalo. Adverte contra o pior mal para o homem, que é a ilusão da onipotência. Não é necessário recuar muito no tempo, basta repensar a história recente para perceber o quanto este perigo é frequente e leva pessoas e povos à catástrofe.> [2]

Amados irmãos, ao contemplar a imagem de Cristo sofredor, sejamos realimentados por uma santa Esperança: ele assumiu nossas dores para nos fortalecer! No final, não é Herodes, Pilatos, ou os Sumos Sacerdotes Anás e Caifás que saem vitoriosos. No terceiro dia, o túmulo vazio do ressuscitado refulge, esmagando toda maldade humana. Persigamos a meta da glória da ressurreição, assumindo com fé a nossa cruz. Só assim, com Cristo, sairemos vitoriosos contra toda maldade.

Salve, ó Cruz, única esperança,

Neste tempo da Paixão!

Na glória deste triunfo

Aumenta a graça aos que oram,

E apaga os crimes dos sentenciados.

 

A ti, Trindade, fonte de salvação

Louvem todos os santos:

Aqueles que salvas pelo mistério da cruz

Favorece pelos séculos.

Amém!

 

[1 e 2] Meditação do Frei Raniero Cantalamessa, na Sexta-feira Santa de 2019.

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